Pelas chagas de Cristo, fomos curados.

Indulgências

Poucos temas católicos foram tão mal compreendidos quanto as indulgências — historicamente, foi o seu abuso (a venda, no século XVI) que serviu de estopim à crise protestante. A doutrina autêntica, porém, é profundamente bela: ela expressa a comunhão dos santos, a realidade do tesouro espiritual da Igreja, e a misericórdia divina aplicada aos vivos e aos mortos. Esta página apresenta a doutrina conforme reformulada na Indulgentiarum Doctrina (Paulo VI, 1967) e no Enchiridion Indulgentiarum (4ª edição, 1999).

Definição

O Catecismo (n. 1471) define: "a indulgência é a remissão, perante Deus, da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa, remissão que o fiel devidamente disposto adquire, sob determinadas condições, pela ação da Igreja, a qual, como dispenseira da redenção, distribui e aplica pelo seu poder o tesouro das satisfações de Cristo e dos santos".

Pontos cruciais para entender corretamente:

  1. Indulgência não perdoa pecados. O pecado já foi perdoado quanto à culpa — pela confissão sacramental ou pela contrição perfeita.
  2. Indulgência remite a pena temporal — a "dívida" de purificação que permanece após o perdão do pecado.
  3. A pena temporal é cumprida em vida ou no Purgatório. A indulgência antecipa essa purificação.
  4. O "tesouro" da Igreja é o valor infinito da satisfação de Cristo e o valor abundante das obras dos santos, do qual a Igreja, por mandato de Cristo, dispõe.

A distinção entre culpa e pena

Quando alguém peca, contrai duas realidades distintas:

A culpa

É a ofensa contra Deus em si mesma — o "voltar as costas" para Ele. É perdoada pela confissão sacramental (ou pela contrição perfeita com propósito de confessar-se).

A pena temporal

São as consequências do pecado que permanecem na alma e no mundo, mesmo após o perdão da culpa. Como uma ferida que cicatriza, mas deixa marca; como o relacionamento que se restaura, mas precisa ser reconstruído. Essa "purificação" é necessária para entrar no Céu (Ap 21,27 — "nada de impuro entrará na Cidade Santa").

Analogia clássica: uma criança quebra uma janela. O pai a perdoa (a culpa é apagada, a relação é restaurada). Mas a janela ainda está quebrada — alguém precisa consertá-la. Essa é a "pena temporal": não é castigo, mas restauração e amadurecimento.

Indulgência plenária e parcial

Plenária

Remite toda a pena temporal devida pelos pecados até aquele momento. Quem morre logo após obtê-la com as devidas disposições vai diretamente ao Céu, sem passar pelo Purgatório.

Parcial

Remite parte da pena temporal. Na reforma de Paulo VI (1967), foram suprimidas as antigas indicações de "dias" e "anos" — agora, a indulgência parcial corresponde, em termos espirituais, ao valor da própria obra realizada com fé.

Condições para a indulgência plenária

Para obter uma indulgência plenária, são necessárias quatro condições:

As quatro condições

  1. Realizar a obra indulgenciada (varia conforme a indulgência)
  2. Confissão sacramental (até 20 dias antes ou depois)
  3. Comunhão eucarística (idealmente no mesmo dia)
  4. Oração pelas intenções do Sumo Pontífice (basta um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, ou outras conforme escolha)

Condição interior indispensável: total desapego de qualquer pecado, mesmo venial. Se faltar esse desapego (mas as outras condições forem cumpridas), a indulgência será parcial.

Com uma só confissão podem-se ganhar várias indulgências plenárias; com uma só comunhão e uma só oração pelo Papa, ganha-se uma indulgência plenária. Pode-se obter no máximo uma indulgência plenária por dia (exceto in articulo mortis).

Obras indulgenciadas mais comuns

O Enchiridion Indulgentiarum lista numerosas obras. Algumas das mais acessíveis:

Concedidas como plenárias

Concedidas como parciais

Aplicação às almas do Purgatório

Toda indulgência (plenária ou parcial) pode ser:

Não se pode aplicar a outra pessoa viva — cada um deve ganhá-las para si mesmo (com exceção da indulgência in articulo mortis, para alguém em perigo de morte).

Aplicar uma indulgência plenária a uma alma do Purgatório é, sob a fé católica, libertá-la imediatamente para o Céu (se Deus aceitar o sufrágio segundo Sua sabedoria). É um ato de extraordinária caridade — talvez o maior que se pode fazer por um falecido.

História rápida

A prática das indulgências tem raízes antigas:

"As indulgências constituem precioso tesouro da Igreja, do qual ela dispõe e distribui segundo o seu poder."

— Concílio de Trento, sessão XXV (1563)

Veja também: Confissão · Sacramentais · Estado de graça