— A Vida Divina em Nós —

A Graça Santificante

A graça é o dom gratuito que Deus nos faz de sua própria vida divina, infundida pelo Espírito Santo na alma para curá-la do pecado e santificá-la. Sem a graça, somos incapazes do bem sobrenatural e da salvação. Com ela, participamos da natureza divina (2Pd 1,4) — não por nossos méritos, mas pela bondade do Pai, pela redenção de Cristo e pelo dom do Espírito.

O que é a graça

O Catecismo (n. 1996) ensina: "A graça é o favor, o auxílio gratuito que Deus nos dá para correspondermos ao seu apelo: tornar-nos filhos de Deus, filhos adotivos, participantes da natureza divina, da vida eterna".

A graça é sobrenatural — está acima das forças da natureza humana. Nenhum esforço, mérito ou virtude natural pode produzi-la. Vem inteiramente de Deus como dom gratuito. Daí o nome graça (do latim gratis, "de graça").

Tipos de graça

Graça santificante (habitual)

É um dom estável e habitual da alma, infundido permanentemente pelo Espírito Santo, que nos torna participantes da vida trinitária. É chamada também graça habitual porque permanece na alma como uma "qualidade" sobrenatural, enquanto não for expulsa pelo pecado mortal.

Quem está em estado de graça tem na alma a graça santificante. É amigo de Deus, templo do Espírito Santo, filho adotivo, herdeiro do céu. Se morrer assim, está salvo (embora possa precisar passar pelo purgatório se ainda restarem penas temporais a expiar).

Graça atual

São intervenções pontuais de Deus na alma — moções, iluminações, inspirações, fortalecimentos — que nos dispõem para atos sobrenaturais concretos. Diferente da santificante (que é estado permanente), a graça atual é momentânea: é o "sopro" do Espírito Santo nos momentos específicos.

Mesmo quem está em pecado mortal recebe graças atuais: são elas que o impelem ao arrependimento, à confissão, à conversão. Sem graças atuais, ninguém sairia do pecado.

Como recebemos a graça santificante

  1. Pela primeira vez: no Batismo, que é a "porta da vida espiritual".
  2. Aumentada: em cada sacramento recebido dignamente (especialmente Eucaristia e Crisma).
  3. Recuperada após perda: pela Confissão, ou por contrição perfeita com firme propósito de confessar-se.
  4. Crescida pelas obras boas: orações, sacrifícios, atos de caridade — sempre na medida em que são feitos em estado de graça e com retidão de intenção.

Como se perde a graça

O pecado mortal expulsa a graça santificante

Apenas o pecado mortal (matéria grave, pleno conhecimento, pleno consentimento) expulsa a graça santificante da alma. O pecado venial fere a caridade mas não a destrói — a graça permanece, embora diminuída.

Quem morre em pecado mortal não-arrependido, conforme ensinamento católico, exclui-se da comunhão com Deus. Por isso a urgência da Confissão.

Os efeitos da graça santificante

A graça santificante produz seis efeitos principais na alma (Catecismo, nn. 1997-2005):

  1. Justificação — torna o pecador justo aos olhos de Deus, apaga o pecado.
  2. Filiação divina — torna-nos filhos adotivos de Deus por participação na natureza divina.
  3. Inabitação trinitária — a Santíssima Trindade habita a alma como em seu templo (Jo 14,23).
  4. Virtudes teologais infusas — fé, esperança e caridade são derramadas na alma.
  5. Sete dons do Espírito Santo — sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade, temor de Deus.
  6. Capacidade de merecer — as obras feitas em graça têm valor sobrenatural diante de Deus.

Mérito e graça

Pode-se merecer? Em sentido estrito (em justiça rigorosa), não — somos infinitamente devedores de Deus. Mas em sentido amplo, sim: Deus prometeu recompensar nossas obras feitas em estado de graça, e essa promessa é o fundamento do mérito.

Ninguém pode merecer a primeira graça (a graça santificante inicial) — esta é puro dom. Mas, já justificado, o cristão pode merecer aumento de graça, perseverança final, e os bens temporais úteis para a salvação. Sempre, porém, "o mérito do homem perante Deus na vida cristã decorre de que Deus livremente dispôs associar o homem à obra de sua graça" (Catecismo, n. 2008).

Graça e liberdade

Deus respeita a liberdade humana. A graça não anula a liberdade — ao contrário, a sara e a eleva. O ser humano coopera com a graça pela sua resposta livre: pode acolhê-la ou rejeitá-la. Esta é a doutrina católica equilibrada entre o pelagianismo (que exagerava a capacidade humana) e o protestantismo radical (que negava a liberdade).

São Tomás resume: "O homem coopera com a graça pelo seu livre arbítrio iluminado e fortalecido pela própria graça". A graça precede, acompanha e segue cada ato sobrenatural — mas o ato é sempre verdadeiramente do homem.

Diferença entre estado de graça e sentir-se em graça

Não se confunda

Estar em estado de graça não é uma sensação. Não é alegria emocional, fervor sentido, paz psicológica. Estes podem acompanhar a graça, mas também podem faltar mesmo em quem está em graça (períodos de aridez, noite escura da alma, depressão).

O critério objetivo do estado de graça é: não estou consciente de nenhum pecado mortal não confessado. Quem fez boa confissão recente e não cometeu pecado grave depois, está em graça — mesmo que se sinta sem fervor.

"Eis que estou à porta e chamo; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo."

— Ap 3,20

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